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Vol. 70. Núm. 6.
Páginas 635-641 (01 Novembro 2020)
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Vol. 70. Núm. 6.
Páginas 635-641 (01 Novembro 2020)
Estudos Experimentais
DOI: 10.1016/j.bjan.2020.08.007
Open Access
Efeitos do rocurônio, sugamadex e complexo rocurônio‐sugamadex sobre a coagulação em ratos
Effects of rocuronium, sugammadex and rocuronium‐sugammadex complex on coagulation in rats
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Ismar Lima Cavalcantia, Estêvão Luiz Carvalho Bragaa,
Autor para correspondência
estbraga@hotmail.com

Autor para correspondência.
, Nubia Verçosab, Alberto Schanaiderb, Louis Barrucandb, Hans Donald de Boerc, Luiz Vaned
a Universidade Federal Fluminense, Niterói, RJ, Brasil
b Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
c Martini Hospital Groningen, Groningen, Países Baixos
d Universidade Estadual Paulista (UNESP), São Paulo, SP, Brasil
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Estatísticas
Figuras (1)
Tabelas (6)
Tabela 1. Peso corporal (g)
Tabela 2. Hematócrito (%)
Tabela 3. Contagem de plaquetas (×103.μL‐1)
Tabela 4. Tempo de protrombina (s)
Tabela 5. Tempo de tromboplastina parcial ativada (s)
Tabela 6. Fibrinogênio plasmático (mg.dL‐1)
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Resumo
Introdução e objetivos

O sugamadex é uma substância farmacológica alternativa capaz de reverter o bloqueio neuromuscular sem as limitações apresentadas pelos anticolinesterásicos. Entretanto, há relatos de transtornos de coagulação relacionados ao tratamento com sugamadex sem que mecanismos exatos de seus efeitos sobre a coagulação sejam totalmente compreendidos. O objetivo da presente pesquisa foi avaliar os efeitos do rocurônio, sugamadex e do complexo rocurônio‐sugamadex sobre a coagulação em um modelo experimental com ratos.

Métodos

Este é um estudo randomizado experimental animal. Ratos Wistar foram aleatoriamente designados aos seguintes grupos: grupo controle; Grupo Ssal – 0,5 mL de solução salina intravenosa; Grupo sugamadex – sugamadex intravenoso (100 mg.kg‐1); e Grupo rocurônio‐sugamadex – solução intravenosa com rocurônio (3,75 mg.kg‐1) e sugamadex (100 mg.kg‐1). A anestesia foi realizada utilizando‐se isoflurano com ventilação controlada. Os fatores de coagulação foram medidos 10 minutos após o final do preparo pré‐operatório e 30 minutos após a administração de drogas de acordo com os grupos escolhidos.

Resultados

Contagem de plaquetas, tempo de protrombina e tempo de tromboplastina parcial ativada foram semelhantes entre os grupos e entre os momentos dentro de cada grupo. Houve redução nos níveis de fibrinogênio plasmático entre os tempos 1 e 2 no grupo rocurônio‐sugamadex (p=0,035).

Conclusões

O complexo rocurônio‐sugamadex promoveu reduções na contagem de fibrinogênio plasmático, apesar de os níveis continuarem dentro dos limites normais.

Palavras‐chave:
Sugamadex
Rocurônio
Coagulação sanguínea
Abstract
Background and objectives

Sugammadex is an alternative pharmacological drug capable of reversing neuromuscular blockades without the limitations that are presented by anticholinesterase drugs. Coagulation disorders that are related to treatment with sugammadex were reported. The exact mechanism of the effects on coagulation are not fully understood. The objective of this research is to evaluate the effects of rocuronium, sugammadex and the rocuronium‐sugammadex complex on coagulation in an experimental model in rats.

Methods

This is an experimental randomized animal study. Wistar rats were randomly assigned into the following groups: the Control Group; the Ssal Group – 0.5 mL of intravenous saline; the Sugammadex Group – intravenous sugammadex (100 mg.kg‐1); and the Rocuronium‐Sugammadex Group – intravenous solution with rocuronium (3.75 mg.kg‐1) and sugammadex (100 mg.kg‐1). Anesthesia was performed by using isoflurane with controlled ventilation. Coagulation factors were measured 10 minutes after the end of the preoperative preparation and 30 minutes after the administration of the drugs in accordance with the chosen groups.

Results

Platelet counts, prothrombin times and activated partial thromboplastin times were similar between the groups and between the moments within each group. There were reductions in the plasma fibrinogen levels between sample times 1 and 2 in the Rocuronium‐Sugammadex group (p=0.035).

Conclusions

The rocuronium‐sugammadex complex promoted reductions in plasma fibrinogen counts, although the levels were still within normal limits.

Keywords:
Sugammadex
Rocuronium
Blood coagulation
Texto Completo
Introdução

O bloqueio neuromuscular residual é um problema prático no campo da anestesia clínica que pode levar a desfechos clínicos adversos porque aumenta as complicações pulmonares no período pós operatório, incluindo pneumonia, atelectasia, hipoxemia e hipercapnia, que podem levar a aumentos na morbidade e mortalidade.1,2 O monitoramento neuromuscular e o uso rotineiro de drogas de reversão são fatores‐chave na prevenção do bloqueio neuromuscular pós‐operatório residual.

O sugamadex, que é uma droga da classe dos agentes seletivos de ligação neuromuscular, é uma γ‐ciclodextrina modificada que envolve o bloqueador neuromuscular (rocurônio ou vecurônio) e leva à reversão do bloqueio neuromuscular induzido por rocurônio ou vecurônio.3,4 O sugamadex foi desenvolvido como uma substância farmacológica alternativa que seria capaz de reverter o bloqueio neuromuscular sem as limitações apresentadas pelos anticolinesterásicos. Foi inicialmente introduzido pela comunidade científica em 2002; desde então, estudos animais e humanos demonstraram a eficácia e tolerabilidade da droga.5,6 Além disso, desde que a droga foi introduzida, houve notificação de vários eventos adversos relacionados ao uso do sugamadex, incluindo transtornos de coagulação.7‐9 Experimentos in vitro demonstraram que o sugamadex influencia os efeitos do fator Xa na via de coagulação, que então leva à inibição da conversão da protrombina em trombina.10 Além disso, ele pode inibir a produção do fator Xa através da via intrínseca.10 Em voluntários humanos, foi demonstrado que o sugamadex em dosagens de 4 mg.kg‐1 e 16 mg.kg‐1 levou a aumentos moderados nos níveis de protrombina e tempo de tromboplastina parcial ativada.10 Entretanto, o mecanismo exato desses efeitos sobre a coagulação não está totalmente compreendido.

O objetivo do presente estudo foi avaliar os efeitos do rocurônio, sugamadex e do complexo rocurônio‐sugamadex sobre a coagulação em ratos.

Métodos

O protocolo e procedimentos experimentais foram aprovados pelo Comitê de Ética em Experimentos Animais da Escola de Medicina de Botucatu – Universidade Estadual de São Paulo “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP).

Ratos Wistar machos (n=28) pesando 300–500g e fornecidos pelo Biotério Central de Botucatu (UNESP) foram incluídos no presente estudo. O cuidado dos animais no estudo foi realizado segundo o ARRIVE (Animals in Research: Reporting in Vivo Experiments, ou Animais em Pesquisa: Relatos de Experimentos In Vivo).

Grupos experimentais

Neste estudo, os animais foram aleatoriamente distribuídos nos seguintes quatro grupos (com sete animais em cada grupo): o Grupo controle não recebeu nenhuma intervenção anestésica; o Grupo Ssal recebeu administração de 0,5 mL IV de solução salina sem infusão de droga; o Grupo Sugamadex recebeu uma administração intravenosa de 100 mg.kg‐1 de sugamadex (equivalente a dose humana de 16 mg.kg‐1)11 em 0,5 mL de solução salina; e o Grupo Rocurônio‐Sugamadex recebeu uma administração intravenosa da combinação de 3,75 mg.kg‐1 de rocurônio (equivalente à dose humana de 0,6 mg.kg‐1)11 e 100 mg.kg‐1 de sugamadex (equivalente a dose humana de 16 mg.kg‐1)12 em 0,5 mL de solução salina (fig. 1).

Figura 1.

Fluxograma ilustrando o processo de seleção dos ratos Wistar.

(0,35MB).

Em todos os grupos experimentais, os ratos foram anestesiados em um recipiente fechado com um fluxo simultâneo de 2 L.min‐1 oxigênio e 4% isoflurano por 5–10 minutos até que os animais ficassem inconscientes. Depois disso, a traqueia de cada um dos animais foi intubada e a anestesia foi mantida com 1,5%–3% de isoflurano em oxigênio com um fluxo de 0,4 L.min‐1. Foi realizada ventilação mecânica pulmonar controlada com o ventilador Fan Rodent, modelo 683TM (Harvard Apparatus, Holliston, Estados Unidos). Foi realizada anestesia inalatória e administração de oxigênio utilizando‐se a máquina de anestesia conhecida como Ohmeda Excel 210 SE™ (Datex‐Ohmeda, Madison, Estados Unidos) e o vaporizador foi calibrado pelo Isotec 5, Ohmeda™ (Datex‐Ohmeda, Madison, Estados Unidos).

Coleta de dados

A coleta de parâmetros hemodinâmicos e amostras de sangue foi realizada em dois momentos diferentes (tempos de amostragem): T1 foi obtido 10 minutos após o final do preparo pré‐operatório e T2 foi obtido 30 minutos após os tratamentos aleatoriamente selecionados com infusões de sugamadex, sugamadex‐rocurônio ou solução salina nos respectivos grupos. Amostras de tecido hepático e renal foram coletadas imediatamente após o final do experimento, quando todos os animais foram eutanasiados com anestesia inalatória profunda e injeções intra‐cardíacas de 4 mL de 2,5% tiopental sódico. A equipe que coletou os dados permaneceu cega durante toda a pesquisa.

Procedimento experimental

As seguintes sequências experimentais foram realizadas: 1 – Jejum de alimentos sólidos por 2 horas com livre acesso a água; 2 – Pesagem do animal; 3 – Indução da anestesia com isoflurano 4% em recipiente fechado e ventilação espontânea por 5–10 minutos; 4 – Intubação traqueal; 5 – Colocação e fixação dos animais em um dispositivo Claude Bernard; 6 – Ventilação mecânica com um volume corrente de 8 mL.kg‐1 de oxigênio e isoflurano em concentrações que foram suficientes para completar a anestesia; 7 – Disseção e canulação da veia jugular esquerda com a finalidade de hidratação (5 mL.kg‐1.h‐1 de solução salina administrada por bomba de infusão [fabricante Anne™]); 8 – Disseção e canulação da carótida direita para monitorização da Frequência Cardíaca (FC) e da Pressão Arterial Média (PAM); 9 – Espera de 10 minutos após o preparo pré‐operatório; 10 – mensuração dos parâmetros hemodinâmicos e amostras de sangue correspondentes ao momento T1. Após a coleta de amostras de sangue arterial (2mL), foi realizada reposição volêmica com 4mL de solução salina intravenosa; 11 – Infusão da droga adequada nos grupos específicos, de acordo com o protocolo de estudo; 12 – Trinta (30) minutos após a infusão da droga adequada, foram medidos os mesmos parâmetros de T1, correspondendo ao momento T2; 13 – Após a coleta de amostras de sangue arterial (2 mL), foi realizada reposição volêmica com 4 mL de solução salina intravenosa; 14 – Animais eutanasiados; e 15 – Final do experimento.

Procedimentos de coleta de amostras de sangue e parâmetros

FC e PAM foram obtidas usando‐se um transdutor conhecido como Datex angstrom modelo AS/3™ (Datex‐Ohmeda, Madison, Estados Unidos) que foi preso à carótida e configurado para o monitoramento contínuo desses dados. Os dados do hematócrito foram obtidos via amostragem de sangue através de cateter introduzido na carótida; depois disso, o sangue coletado foi colocado em dois tubos capilares e transportado para a microcentrífuga. A contagem de plaquetas foi analisada usando‐se fluorescência através de citômetro de fluxo automático (Beckman Coulter, São Paulo, Brasil). Tempo de Protrombina (TP), Tempo de Tromboplastina Parcial Ativada (PTTa) e valores de fibrinogênio foram avaliados usando o método fotométrico com um analisador automático de coagulação (MC‐SMT100V, China).

Análise estatística

O teste t de Student para duas médias independentes e nível de significância 0,05 foram usados para calcular a diferença entre variáveis. Os valores p <0,05 foram aceitos como significantes. Todas as amostras foram analisadas usando‐se o teste de Wilcoxon, que mostrou que todos os dados foram paramétricos. Os dados tiveram distribuição normal. Para as variáveis independentes, o teste‐t de Student foi usado para comparar os dados.

Para os níveis de fibrinogênio que não exibiram homogeneidade das variâncias, o teste Kruskal‐Wallis foi realizado ao se comparar grupos nos dois momentos, e a comparação de Wilcoxon foi usada para a comparação dos momentos em cada grupo. O nível de significância foi considerado como p <0,05.

Resultados

Os animais no Grupo Rocurônio‐Sugamadex apresentaram pesos maiores que os animais nos outros grupos. Entretanto, o peso médio permaneceu dentro dos parâmetros de inclusão predeterminado (tabela 1). Houve uma diferença estatisticamente significante entre os grupos controle e rocurônio‐sugamadex (p=0,003).

Tabela 1.

Peso corporal (g)

Grupos  Média  DP  Intervalo de Confiança 95%
      Inferior  Superior 
365,7  23,7  343,8  387,6 
Ssal  370  36,51  336,2  403,8 
Sug  355,7  39,52  319,2  392,3 
Roc‐Sug  440  47,61  396  484 

C, Controle; Ssal, Solução salina; Sug, Sugamadex; Roc‐Sug, Rocurônio‐sugamadex.

C vs. Ssal, p=0,799; C vs. Sug, p=0,577; C vs. Roc‐Sug, p=0,003.

Os valores de temperatura corporal, frequência cardíaca e pressão arterial média foram semelhantes entre todos os grupos e nos dois momentos amostrais dentro de cada grupo.

Os níveis de hematócrito foram semelhantes entre os grupos. Entretanto, os níveis de hematócrito exibiram diferenças estatisticamente significantes entre os dois momentos amostrais em todos os grupos, exceto no Grupo Sugamadex (tabela 2).

Tabela 2.

Hematócrito (%)

GruposMédia  DP  Intervalo de Confiança 95%p (T1 vs. T2) 
        Inferior  Superior   
CT1  40,71  1,11  39,69  41,74  0,0001
T2  38,00  0,58  37,47  38,53 
SsalT1  40,29  1,89  38,54  42,03  0,029
T2  37,71  1,98  35,89  39,54 
SugT1  39,71  3,40  36,57  42,86  0,100
T2  36,86  2,55  34,50  39,21 
Roc‐SugT1  40,43  1,81  38,75  42,11  0,022
T2  38,00  1,63  36,49  39,51 

C, Controle; Ssal, Solução salina; Sug, Sugamadex; Roc‐Sug, Rocurônio‐sugamadex.

Tempo 1: C vs. Ssal, p=0,615; C vs. Sug, p=0,474; C vs Roc‐Sug, p=0,728.

Tempo 2: C vs. Ssal, p=1,0; C vs. Sug, p=0,269; C vs. Roc‐Sug, p=1,0.

A contagem de plaquetas foi semelhante entre os grupos e entre os momentos de amostragem dentro de cada grupo (tabela 3).

Tabela 3.

Contagem de plaquetas (×103.μL‐1)

GruposMédia  DP  Intervalo de Confiança 95%p (T1 vs. T2) 
        Inferior  Superior   
CT1  589  77  517,6  660,5  0,543
T2  509  113  404,9  613,8 
SsalT1  525  120  414,2  636,2  0,941
T2  500  81  424,3  575,6 
SugT1  522  50  475,8  568,8  0,543
T2  454  51  406,7  501,5 
Roc‐SugT1  428  58  374,4  482,6  0,251
T2  412  68  352,5  472,9 

C, Controle; Ssal, Solução salina; Sug, Sugamadex; Roc‐Sug, Rocurônio‐sugamadex.

Tempo 1: C vs. Ssal, p=0,765; C vs. Sug, p=0,573; C vs. Roc‐Sug, p=0,479.

Tempo 2: C vs. Ssal, p=0,765; C vs. Sug, p=0,508; C vs. Roc‐Sug, p=0,274.

Os tempos de protrombina foram semelhantes entre os grupos e entre os momentos de amostragem dentro de cada grupo (tabela 4).

Tabela 4.

Tempo de protrombina (s)

GruposMédia  DP  Intervalo de Confiança 95%p (T1 vs. T2) 
        Inferior  Superior   
CT1  19,91  2,19  17,89  21,94  0,678
T2  20,8  1,91  19,03  22,57 
SsalT1  17,66  1,48  16,29  19,03  0,782
T2  18,6  1,13  17,55  19,65 
SugT1  20,11  1,74  18,51  21,72  0,950
T2  20,59  1,99  18,75  22,42 
Roc‐SugT1  18,77  2,87  16,11  21,43  0,805
T2  19,97  3,73  16,85  23,09 

C, Controle; Ssal, Solução salina; Sug, Sugamadex; Roc‐Sug, Rocurônio‐sugamadex.

Tempo 1: C vs. Ssal, p=0,458; C vs. Sug, p=0,928; C vs. Roc‐Sug, p=0,565.

Tempo 2: C vs. Ssal, p=0,374; C vs. Sug, p=0,593; C vs. Roc‐Sug, p=0,490.

Os tempos de tromboplastina parcial ativada (s) foram semelhantes entre os grupos e entre os momentos de amostragem dentro de cada grupo (tabela 5).

Tabela 5.

Tempo de tromboplastina parcial ativada (s)

GruposMédia  DP  Intervalo de Confiança 95%p (T1 vs. T2) 
        Inferior  Superior   
CT1  42,09  7,44  35,21  48,97  0,860
T2  45,17  6,62  39,05  51,3 
SsalT1  37,34  11,06  27,11  47,58  0,493
T2  44,43  8,25  36,79  52,06 
SugT1  41,43  3,47  38,13  44,56  0,313
T2  46,97  8,50  39,11  54,83 
Roc‐SugT1  31,91  11,41  21,36  42,46  0,946
T2  28,83  13,26  16,56  41,09 

C, Controle; Ssal, Solução salina; Sug, Sugamadex; Roc‐Sug, Rocurônio‐sugamadex.

Tempo 1: C vs. Ssal, p=0,741; C vs. Sug, p=0,928; C vs. Roc‐Sug, p=0,467.

Tempo 2: C vs. Ssal, p=0,953; C vs. Sug, p=0,942; C vs. Roc‐Sug, p=0,235.

Houve uma redução estatisticamente significante nos níveis de fibrinogênio plasmático entre os momentos de amostragem 1 e 2 no Grupo Rocurônio‐Sugamadex (p=0,035). Não houve diferença estatisticamente significante entre os outros grupos (tabela 6).

Tabela 6.

Fibrinogênio plasmático (mg.dL‐1)

GruposMédia  DP  Intervalo de Confiança 95%p (T1 vs. T2) 
        Inferior  Superior   
CT1  250,7  59,89  206,0  295,0  0,660
T2  237,8  42,49  206,3  269,3 
SsalT1  249,3  12,93  239,7  258,9  0,217
T2  269,3  35,30  243,1  295,5 
SugT1  227,9  31,38  204,7  251,1  0,506
T2  217,9  17,08  205,2  230,6 
Roc‐SugT1  255,0  17,93  241,7  272,9  0,035
T2  230,0  18,52  216,3  243,7 

C, Controle; Ssal, Solução salina; Sug, Sugamadex; Roc‐Sug, Rocurônio‐sugamadex.

Tempo 1: C vs. Ssal, p=0,952; C vs. Sug, p=0,397; C vs. Roc‐Sug, p=0,860.

Tempo 2: C vs. Ssal, p=0,189; C vs. Sug, p=0,306; C vs. Roc‐Sug, p=0,685.

Discussão

O principal achado deste estudo foi a redução nos níveis de fibrinogênio plasmático entre os momentos de amostragem 1 e 2 no Grupo Rocurônio‐Sugamadex.

Em todos os grupos examinados, observou‐se que os pesos dos animais ficaram dentro dos parâmetros dos critérios de inclusão. Nenhum dos animais apresentou hipotermia, o que poderia influenciar os efeitos farmacodinâmicos das drogas de bloqueio neuromuscular.12

A redução nos níveis de hematócrito no momento T2 poderia ser parcialmente explicada pela redução das células sanguíneas resultante dos procedimentos de coleta de amostras de sangue, seguidos por reposição volêmica com solução salina, assim levando à diluição das células sanguíneas.13

O tempo de protrombina foi usado para avaliar a via extrínseca e a via comum de coagulação (fatores de coagulação II, V, VII, X e fibrinogênio).14 Conceitualmente, o tempo de protrombina aumenta em casos de deficiências de fibrinogênio ou fatores II, V, VII e X. O fibrinogênio é uma glicoproteína hexamérica que está envolvida nos estágios finais da coagulação como precursor dos monômeros de fibrina necessários para a formação do tampão plaquetário. O fibrinogênio possui alta massa molecular (número), é solúvel no plasma sanguíneo e é a enzima ativa que media a conversão de trombina em fibrina.15

O presente estudo demonstrou redução no fibrinogênio plasmático no Grupo Rocurônio‐Sugamadex. Apesar do rebaixamento nos níveis de fibrinogênio, estes permaneceram na faixa normal, sem alterações no tempo de protrombina. A disponibilidade de fibrinogênio é regulada por meio de alterações dinâmicas na síntese e quebra, a fim de manter a função de coagulação. A deficiência de fibrinogênio pode levar a polimerização disfuncional da fibrina e pode prejudicar a hemostasia, mas os baixos níveis de fibrinogênio que foram observados neste estudo não levaram a nenhum sangramento nos preparos. Entretanto, a hemodilução, hiperfibrinólise, acidose e hipotermia podem ter resultado da redução da disponibilidade de fibrinogênio e podem, consequentemente, ter afetado o processo de coagulação.14

Como não foi encontrada nenhuma indicação de acidose, hipotermia ou hiperfibrinólise no presente estudo, presume‐se que a redução de fibrinogênio ocorreu como resultado da hemodiluição, devido à reposição com solução salina do volume do sangue que foi coletado para testes laboratoriais.13 Isso pode ter levado a uma discreta hemodilução que pode ter promovido a redução nos níveis de fibrinogênio. Portanto, a redução nos níveis de fibrinogênio pode ser devido aos parâmetros metodológicos do estudo e não especificamente devido às drogas examinadas.

O tempo de tromboplastina parcial corresponde ao tempo que a coagulação do plasma recalcificado leva para ocorrer na presença de cefalina. O tempo de tromboplastina parcial ativada é usado para avaliar a eficiência da via intrínseca de coagulação na mensuração da formação de coágulos de fibrina. Um tempo prolongado de tromboplastina indica que um dos fatores está apresentando um valor mais baixo que o normal, ou que há presença de inibidores, como os fatores VIII, IX, XI e XII (via intrínseca) ou fatores II, V e X (via comum).15 O presente estudo demonstrou que o sugamadex não alterou o tempo de tromboplastina parcial ativada entre os momentos estudados; portanto, após a administração da droga, a via intrínseca de coagulação ficou preservada. Em contraste, Rahe‐Meyer et al.16 demonstraram um prolongamento transitório (< 1 hora) no tempo de tromboplastina parcial ativada após a administração de sugamadex. Podemos pressupor que essa diferença pode ser porque nosso estudo foi realizado em ratos, ao passo que a pesquisa de Rahe‐Meyer et al.16 foi realizada em humanos, e os tempos das mensurações eram diferentes. Tas et al.17 mostraram que a administração de sugamadex em ratos não teve efeito nas mensurações de TP, PTTa e fibrinogênio, o que foi confirmado neste estudo.

Uma possível causa para o efeito do sugamadex nos vários ensaios de coagulação foi anteriormente descrito por Dirkmann et al.18 e é explicado por um aparente efeito de ligação fosfolipídica, assim sugerindo que os efeitos anticoagulantes do sugamadex são provavelmente um artefato in vitro.18

Uma importante questão a ser respondida é se esses efeitos adversos são reprodutíveis em contextos clínicos com risco aumentado de sangramento no período pós‐operatório. Raft et al.7 estudaram a evolução clínica dos transtornos de coagulação pós‐operatórios (reoperação para hemostasia e avaliação de sangramento em curativos) em humanos e demonstraram que o sugamadex não estava associado a taxas mais altas de sangramento. Enquanto isso, Carron19 afirmou que não são possíveis conclusões definitivas ainda acerca dos riscos de sangramento em pacientes cirúrgicos que recebem sugamadex. Um estudo in vitro mais recente com voluntários saudáveis sugeriu que doses supraterapêuticas de sugamadex estavam associadas a hipocoagulação moderada no sangue total, o que pode ser confirmado por tromboelastografia.20 Tal hipótese precisa ser testada e isso exigirá a coleta de dados humanos.21

O presente estudo teve algumas limitações. Por exemplo, devido às diferenças entre as espécies, não é possível extrapolar os resultados para humanos. Ademais, nas áreas da bioquímica clínica, hematologia e toxicologia, há variações fisiológicas consideráveis entre as espécies animais, e mesmo os resultados positivos deste estudo podem ser devido a fatores metodológicos. Não foram usados testes de viscoelasticidade neste estudo.

São necessários mais estudos clínicos não apenas para investigar a influência global do sugamadex sobre a coagulação, mas também para examinar a influência mais específica da droga em pacientes com transtornos de coagulação.

Resumo

No presente estudo com ratos, o grupo complexo Rocurônio‐Sugamadex apresentou redução nos níveis de fibrinogênio plasmático entre momentos de amostragem 1 e 2 no Grupo Rocurônio‐Sugamadex. Entretanto, a redução nos níveis de fibrinogênio plasmático permaneceu dentro dos limites normais e não causou sangramento. Estudos clínicos futuros são necessários para investigar os efeitos do sugamadex sobre a coagulação.

Conflitos de interesse

Os autores declararam não haver conflitos de interesse.

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