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Vol. 69. Núm. 5.
Páginas 484-492 (01 Setembro 2019)
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Vol. 69. Núm. 5.
Páginas 484-492 (01 Setembro 2019)
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DOI: 10.1016/j.bjan.2019.06.005
Open Access
Eficácia e segurança de antifibrinolíticos em cirurgia oncológica: uma revisão sistemática e metanálise
Efficacy and safety of antifibrinolytics in oncological surgery: a systematic review and meta‐analysis
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Aline Menezes Sampaioa, Gabriel Magalhães Nunes Guimarãesb, Germano Pinheiro Medeirosa, Germana Medeiros Mendes Damascenoa, Ricardo Martins de Abreu Silvad, Rogean Rodrigues Nunesa, Hermano Alexandre Lima Rochae,f, José Carlos Rodrigues Nascimentoa,c,
Autor para correspondência
jcr.nascimento@hotmail.com

Autor para correspondência.
a Hospital Geral de Fortaleza (HGF), Departamento de Anestesia, Fortaleza, CE, Brasil
b Universidade de Brasília (UnB), Centro de Anestesiologia, Brasília, DF, Brasil
c Universidade Federal do Ceará (UFC), Escola de Medicina, Departamento de Morfologia e Instituto de Biomedicina, Ontogenia e Nutrição, Fortaleza, CE, Brasil
d Universidade Federal do Pernambuco (UFPE), Centro de Informática (CIn), Recife, PE, Brasil
e Universidade Federal do Ceará (UFC), Departamento de Saúde Materno Infantil, Fortaleza, CE, Brasil
f Chan School of Public Health, Harvard T.H., Boston, Estados Unidos
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Tabela 1. Características dos estudos incluídos
Tabela 2. Resumo dos resultados
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Resumo
Justificativa e objetivos

A administração de agentes antifibrinolíticos mostrou ser eficaz para reduzir a perda sanguínea e a necessidade de transfusões em cirurgias. No entanto, poucos estudos avaliaram esses agentes em cirurgias oncológicas. O objetivo foi revisar a eficácia e segurança do tratamento com antifibrinolíticos em pacientes submetidos a cirurgias oncológicas.

Conteúdo

Uma pesquisa bibliográfica foi conduzida nos bancos de dados eletrônicos PubMed, OVID, MEDLINE, EMBASE, EBSCO e na Biblioteca Cochrane para identificar ensaios clínicos randomizados feitos em qualquer tipo de cirurgia oncológica. Os dados analisados foram perda sanguínea, necessidade de transfusão e incidência de tromboembolismo arteriovenoso. Cinco ensaios clínicos randomizados que avaliaram 838 pacientes atenderam aos critérios de inclusão. Na análise da incidência de eventos tromboembólicos em cinco ECR, não houve diferença estatisticamente significativa entre a administração do ácido tranexâmico, comparado ao placebo (OR=0,36, IC 95%: 0,11‐1,19, p=0,09; I2=0%). No entanto, quando a perda sanguínea total estimada e a necessidade de transfusão de sangue foram analisadas, o uso do ácido tranexâmico foi associado a uma redução significativa, comparado ao placebo. (DM: ‐135,79, IC 95%: ‐179,50 a ‐92,08, p <0,00001, I2=68%) e (OR=0,45, IC 95%: 0,32‐0,65, p <0,00001, I2=60%), respectivamente.

Conclusões

Esta metanálise não encontrou evidências de que a administração de antifibrinolíticos aumente o risco de complicações tromboembólicas em pacientes submetidos à cirurgia oncológica e apresentou evidências de que é eficaz para reduzir a perda sanguínea total no perioperatório e a necessidade de transfusão de sangue.

Palavras‐chave:
Agentes antifibrinolíticos
Cirurgia oncológica
Tromboembolismo
Perda sanguínea
Abstract
Background and objectives

The administration of antifibrinolytics has been shown to be effective in reducing blood loss and the need for transfusions in surgeries. However, few studies have evaluated these drugs in cancer surgery. The objective was to review the efficacy and safety of the treatment with antifibrinolytics in patients who underwent oncologic surgeries.

Contents

An electronic bibliographic research was conducted in PubMed, OVID, MEDLINE, EMBASE, EBSCO and in the Cochrane Library data basis in order to identify randomized clinical trials performed in any type of oncologic surgery. The data evaluated were blood loss, need for transfusion and incidence of arteriovenous thromboembolism. Five randomized controlled trials evaluating 838 patients met the inclusion requirements. In the analysis of the incidence of thromboembolic events in the five RCTs, there was no statistically significant difference between the administration of tranexamic acid when compared with the placebo (OR=0.36, 95% IC: 0.11–1.19, p=0.09, I2=0%). However, when total estimated blood loss and need for blood transfusion are analyzed, the use of tranexamic acid was associated with a significant reduction over placebo (MD=‐135.79, 95% CI: ‐179.50 to ‐92.08, p<0.00001, I2=68%) and (OR=0.45, 95% CI: 0.32–0.65, p<0.00001, I2=60%), respectively.

Conclusions

This meta‐analysis found no evidence that the administration of antifibrinolytics increases the risk of thromboembolic complications in patients submitted to oncologic surgery, and has shown evidence that it is effective in reducing total perioperative blood loss and the need for blood transfusion.

Keywords:
Antifibrinolytic agents
Cancer surgery
Thromboembolism
Blood loss
Texto Completo
Introdução

A presença de anemia secundária a sangramento, malignidade ou quimioterapia é frequentemente observada em pacientes com câncer e pode aumentar a necessidade de transfusão de produtos sanguíneos durante a cirurgia, principalmente devido a alterações na coagulação e no sistema fibrinolítico. No entanto, para corrigir a perda sanguínea e o choque hemorrágico, esses pacientes são rotineiramente submetidos à transfusão de produtos sanguíneos que, como já bem documentado na literatura, não são isentos de complicações, tais como o aumento da taxa de transmissão de doenças infecciosas, o aumento de uma resposta imune potencialmente ameaçadora e o aumento de lesão pulmonar aguda e de infecções pós‐operatórias.1,2 Além disso, alguns estudos relataram uma associação independente entre a transfusão de sangue e o aumento do risco de recorrência do câncer.3,4

Autores argumentaram que as células cancerígenas aumentam a atividade fibrinolítica com a expressão em sua superfície celular do ativador do plasminogênio tecidual, do ativador do plasminogênio tipo uroquinase e do inibidor do ativador do plasminogênio tipo 1.5 Nesse contexto, uma vez que o sangramento durante cirurgias oncológicas pode ser grave, os antifibrinolíticos (especialmente o ácido tranexâmico – TXA) administrados no período perioperatório demonstraram eficácia na redução da perda sanguínea e da necessidade de transfusão de sangue alogênico em cirurgias cardíacas,6 urológicas7–9 e ortopédicas,10,11 bem como em transplantes hepáticos.12 Em uma revisão sistemática com mais de 10.000 pacientes submetidos a diferentes tipos de cirurgias, sugeriu‐se que a administração de TXA conseguiu reduzir a necessidade de transfusão de sangue em 38%.13

Os únicos antifibrinolíticos comumente usados são o TXA e o ácido epsilon‐aminocaproico (Epsilon‐Aminocaproic Acid – EACA). A aprotinina tem sido usada como agente poupador de sangue em cirurgias, mas, devido à evidência de um aumento do risco de complicações cardiovasculares e mortalidade, atualmente o seu uso é bastante restrito.14 O TXA é um derivado sintético do aminoácido lisina que exerce seus efeitos antifibrinolíticos através do bloqueio reversível do sítio de ligação à lisina na molécula do plasminogênio; o TXA é 6‐10 vezes mais poderoso do que o Eaca e tem uma meia‐vida mais longa. Porém, o Eaca combina‐se com o plasminogênio e a plasmina livre e impede que as enzimas fibrinolíticas se liguem aos resíduos de lisina presentes na molécula de fibrinogênio. Alguns estudos demonstraram que o Eaca também inibe a ativação de plasminogênio pró‐uroquinase induzida pela plasmina e previne a degradação dos receptores glicoproteína Ib, preserva assim a função das plaquetas.5,15

Alguns estudos relataram que os pacientes com tumor maligno apresentam uma probabilidade maior de desenvolver trombose devido a fatores de risco, tais como produção de células cancerígenas pró‐coagulantes, fator tecidual, terapias antiangiogênicas, aumento da contagem de plaquetas pré‐quimioterapia, agentes estimulantes da eritropoiese, aumento do D‐dímero, estágio avançado da doença e localização do tumor (pâncreas, estômago, bexiga, cérebro, pulmão, ginecológico e hematológico).16–19 Embora os pacientes cirúrgicos e oncológicos apresentem alto risco de complicações tromboembólicas no período perioperatório, com incidência de 5‐10%,20,21 o risco de trombose não foi um problema clínico significativo nessa população.22,23

As pessoas com câncer apresentam tendência ao sangramento devido a várias condições específicas da própria doença. A angiogênese e a neovascularização podem ser exacerbadas, particularmente em tumores com disseminação generalizada e volumosos como o câncer de ovário avançado.24,25 Também pode haver sangramento secundário à perda de fatores hemostáticos no espaço extravascular, hipoproteinemia, redução dos fatores de coagulação, disfunção plaquetária ou aumento da fibrinólise.26 Estudos relataram associações entre o câncer de ovário e a hiperfibrinólise como resultado de níveis elevados de D‐dímero e outros produtos de degradação da fibrina e redução da antitrombina III. Essas alterações na coagulação parecem ser mais pronunciadas em pessoas com estágio avançado da doença.27,28

É essencial documentar a segurança do agente antifibrinolítico porque ele bloqueia a quebra da fibrina, impede a ligação do complexo ativador tecidual plasminogênio‐plasmina, facilita assim a formação do coágulo.29 Esse mecanismo despertou preocupações sobre a possibilidade de aumentar os eventos tromboembólicos em uma população que tem fatores pró‐coagulantes.

Embora a eficácia da administração de antifibrinolíticos no período perioperatório de várias cirurgias já esteja bem documentada na literatura, há poucos estudos que avaliaram o uso desses fármacos em cirurgias de câncer e o risco de complicações como tromboembolismo. Portanto, nos propusemos a pesquisar nesta revisão sistemática a segurança e os benefícios dos antifibrinolíticos nessa população.

Métodos

Este estudo de revisão sistemática e metanálise foi feito de acordo com os métodos do Cochrane Handbook for Systematic Reviews of Interventions.30

Critérios de elegibilidade

Ensaios clínicos randômicos que avaliaram o uso de antifibrinolíticos (TXA ou EACA) em pacientes de ambos os sexos (≥18 anos) submetidos à cirurgia oncológica, cujo desfecho primário tenha sido a análise de eventos tromboembólicos. Cirurgia oncológica é definida como um procedimento cirúrgico em paciente com neoplasia em qualquer órgão que tenha como tratamento a cirurgia para fins curativos ou não.

Estudos que incluíram outro método além da terapia antifibrinolítica intravenosa e o usaram nos grupos ativo e controle foram elegíveis para triagem.

Estudos que avaliaram a eficácia e/ou segurança do antifibrinolítico com os seguintes parâmetros:

  • Tromboembolismo venoso documentado por um teste objetivo (ultrassonografia, absorção de fibrinogênio ou venografia de trombose venosa profunda, escaneamento pulmonar ventilação‐perfusão, angiografia pulmonar ou tomografia computadorizada em espiral para embolia pulmonar ou trombose arterial [infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral ou isquemia de membros]).

  • Volume total estimado de perda de sangue (mL).

  • Necessidade de transfusão de sangue.

Tipos de medidas de resultadoResultados primários

Incidência de eventos tromboembólicos arteriais (p. ex.: trombose arterial, infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral).

Incidência de eventos tromboembólicos venosos (p. ex.: trombose venosa, embolia pulmonar).

Resultados secundários

Perda de sangue estimada.

Necessidade de transfusão de sangue.

Estratégia de busca

Uma pesquisa foi feita no PubMed, Ovid, Medline, Embase, Ebsco e no Cochrane Central Register of Controlled Trial (Central).

As seguintes palavras‐chave foram usadas em inglês: “neoplasias” OR “oncologia cirúrgica” AND “agentes antifibrinolíticos” OR “agentes antifibrinolíticos” AND “ensaio clínico” OR “ensaios clínicos como tópico” OR “ensaio clínico” AND “seres humanos” AND Clinical Trial. A pesquisa começou a partir da primeira data recuperável de cada banco de dados de 2 de agosto de 2017 a 31 de outubro de 2018. Artigos escritos em todos os idiomas foram pesquisados.

Coleta e análise de dadosSeleção de estudos

Antes de examinar os estudos selecionados para possível inclusão, um formulário de coleta de dados foi desenvolvido. Todos os títulos e resumos recuperados por busca eletrônica para um banco de dados de gerenciamento (EndNote) foram baixados e os estudos duplicados foram removidos. Três revisores (AMS, GMNG e JCRN) examinaram separadamente as referências restantes e avaliaram a elegibilidade das publicações selecionadas. As pesquisas que claramente não atendiam aos critérios de elegibilidade foram excluídas. O risco de viés foi avaliado de acordo com o Oxford Center for Evidence‐Based Medicine. Cópias completas dos textos potencialmente relevantes foram obtidas. Ensaios clínicos, metanálises, relatos de casos, coorte e revisões foram avaliados. Desses, os ensaios clínicos com nível satisfatório de evidência foram selecionados. Qualquer desacordo foi resolvido discutindo‐se as observações dos testes ou, quando necessário, um quarto revisor foi consultado. Registramos o processo de seleção com detalhes suficientes para construir um fluxograma e “Características dos estudos excluídos”.

Extração e manejo dos dados

Dois revisores (AMS e JCRN) analisaram separadamente as características e os resultados dos dados dos estudos listados em um formulário de coleta de dados pré‐pilotado, bem como os detalhes do método experimental e as características dos participantes e das intervenções. Qualquer desacordo foi resolvido por meio de discussão ou, quando necessário, envolveu uma terceira pessoa. Os dados foram transferidos para o programa de computador Review Manager Versão 5.3 (RevMan). Copenhague: Nordic Cochrane Center, The Cochrane Collaboration, 2014. Os revisores analisaram novamente se os dados foram inseridos corretamente, compararam os dados apresentados na revisão sistemática com os relatórios do estudo. Um terceiro revisor (GMNG) verificou as características de precisão no estudo após o relatório‐teste. Os autores dos estudos selecionados não foram contatados para confirmar a precisão dos dados extraídos e/ou fornecer informações ou esclarecimentos ausentes. Quando mais de um grupo de tratamento ativo foi comparado a um único grupo controle (p. ex.: estudos com doses variáveis), os grupos experimentais foram combinados e depois comparados coletivamente com o grupo controle.

Análise estatística

A análise estatística dos dados coletados foi feita com o programa RevMan 5.3. A hipótese nula foi descartada quando o valor de p foi inferior a 0,05. Para os resultados dicotômicos foram calculadas as razões de chance de Mantel‐Haenzel (odds ratio – OR) com intervalos de confiança (IC) de 95%. Os resultados contínuos foram expressos em diferença de média (DM).

Os resultados para heterogeneidade (I2) foram testados e considerados significativos quando I2 >50% para um valor de p <0,05, de acordo com os métodos desenvolvidos por DerSimonian e Laird.31 O modelo de efeitos fixos foi usado quando não havia evidência de heterogeneidade entre os estudos, mas quando houve alguma evidência de heterogeneidade o modelo de efeitos aleatórios foi usado para a metanálise. OR e IC de 95% foram calculados para cada estudo e apresentados em gráficos de floresta. Quando possível, a avaliação foi individual para cada grupo, calcularam‐se OR e IC de 95% para cada comparação. Avaliamos a heterogeneidade entre os estudos com a estatística I2. O viés de publicação foi avaliado com o gráfico em funil.

ResultadosEstudos incluídos

Na pesquisa bibliográfica inicial, 230 publicações foram identificadas. Após a classificação dos títulos, resumos e avaliação detalhada, cinco estudos clínicos randômicos (ECRs) foram selecionados para inclusão na síntese quantitativa, conforme detalhado no algoritmo de rastreamento (fig. 1). Os cinco estudos incluídos5,9,25,32,33 totalizavam 838 pacientes, foram publicados entre 2006 e 2016 e todos usaram um placebo como comparador (tabela 1).

Figura 1.

Fluxograma do processo de busca, triagem e exclusão de estudos.

(0,13MB).
Tabela 1.

Características dos estudos incluídos

Estudos  Tamanho da amostra  Neoplasias  Dose  Perda sanguínea intraoperatória (mL)Perda sanguínea em 24h (mL)Unidade/taxa de transfusão de hemácias (%)Tromboembolismo arterial e venoso
Autor (Ano)  (n)  Cirurgia  TXA  TXA  Placebo  TXA  Placebo  TXA  Placebo  TXA (n)  Placebo (n) 
Crescenti (2011)  200  Próstata  500mg antes da cirurgia e 250mg.h−1 até sutura da pele  1103 ± 500,8  1335 ± 686,5      22/39  37/67 
Celebi (2006)  105  Colo do útero  10mg.kg−1 antes da cirurgia      270 ± 40  390 ± 35     
Lundin (2014)  100  Ovário  15mg.kg−1 antes da cirurgia  520 (−772 a 3351)  730 (23–3855)      0,76 ± 1,45/15  1,06 ± 1,49/22 
Kulkami (2016)  219  Cabeça e pescoço  10mg.kg−1 antes da cirurgia  750 (600–1000)  780 (150– 2600)  1000 (735–1250)  1110 (850– 1467)  22  27 
Wu (2006)  214  Fígado  500mg antes da cirurgia e 250mg 6/6h por 3 dias  300 (30– 2100)  600 (40– 3410)      17 
Avaliação de qualidade

Cinco artigos que compararam diretamente os períodos intraoperatório e pós‐operatório, eventos tromboembólicos, perda de sangue e necessidade de transfusão sanguínea, com e sem administração de TXA ou EACA, em pacientes submetidos a cirurgias oncológicas foram incluídos nesta metanálise. Não foram encontrados artigos com aprotinina. O tamanho da amostra desses estudos variou de 100 a 219. O TXA estava presente em todos os estudos, mas o EACA apenas em um. Os cinco estudos relataram adequação tanto na geração de sequência quanto na ocultação de alocação. O grau de risco foi avaliado considerando vários fatores, inclusive a geração de sequência aleatória, a ocultação de alocação, a ceguidade, o relatório seletivo e outros possíveis vieses, bem como a graduação de qualidade da evidência (Grade).34 A tabela 2 mostra o resumo dos resultados.

Tabela 2.

Resumo dos resultados

Desfecho  Qualidade da evidênciaEfeito estimado  Qualidade (Grau) 
  Design do estudo  N° de participantes (estudos)  Risco de viés  Inconsistência  Obscuridade  Imprecisão  Viés de publicação  (IC 95%)   
Eventos tromboembólicos  ECR  838 (5 estudos)  Grande risco de viés, rebaixar um nível  Heterogeneidade baixa  Não parece ser um problema  Existe alguma imprecisão: poucos eventos  Assimetria observada no gráfico em funil  OR: 0,36 (0,11–1,19)  ⊕⊕OO Baixo 
Perda sanguínea total estimada  ECR  838 (5 estudos)  Grande risco de viés, rebaixar um nível  Heterogeneidade substancial  Não parece ser um problema  Existe alguma imprecisão: poucos eventos e amplos intervalos de confiança  Assimetria observada no gráfico em funil  DM: ‐135,79 (‐179,50 a ‐92,08)  ⊕⊕OO Baixo 
Necessidade de transfusão de sangue  ECR  838 (5 estudos)  Grande risco de viés, rebaixar um nível  Heterogeneidade substancial  Não parece ser um problema  Existe alguma imprecisão: poucos eventos  Assimetria observada no gráfico em funil  OR = 0,45 (0,32–0,65)  ⊕⊕OO Baixo 

DM: diferença média; ECR: estudo clínico randômico; IC: intervalo de confiança; OR: odds ratio.

Grade de evidência: alta qualidade, o efeito verdadeiro está próximo ao efeito estimado; qualidade moderada, o efeito verdadeiro pode estar próximo ao efeito estimado, mas existe a possibilidade de ser substancialmente diferente; baixa qualidade, o efeito verdadeiro pode ser substancialmente diferente do efeito estimado; baixíssima qualidade, o efeito verdadeiro tende a ser substancialmente diferente do efeito estimado.

Os resultados para viés de publicação foram avaliados e mostrados nas figuras 2 e 3. O estudo conduzido por Amar et al.35 foi excluído porque os pesquisadores não avaliaram complicações tromboembólicas entre os grupos, de acordo com as características dos estudos excluídos.

Figura 2.

Resumo dos riscos de viés: revisão dos julgamentos dos autores sobre cada item de risco de viés expresso em porcentagem para todos os estudos incluídos.

(0,21MB).
Figura 3.

Resumo dos riscos de viés: revisão dos julgamentos dos autores sobre cada item de risco de viés expresso em porcentagem para todos os estudos incluídos.

(0,22MB).
Efeitos da intervençãoEventos tromboembólicos

Não houve evidência de diferença quanto à incidência de eventos tromboembólicos com a administração do ácido tranexâmico comparado ao placebo (OR = 0,36; IC 95%: 0,11–1,19; p = 0,09; I2 = 0%) (fig. 4).

Figura 4.

Gráfico em floresta para comparação: 1a análise da comparação do ácido tranexâmico versus placebo em complicações tromboembólicas.

(0,19MB).
Perda total de sangue estimadaÁcido tranexâmico vs. placebo

O uso de ácido tranexâmico foi associado a uma redução significativa da perda total de sangue no perioperatório comparado ao placebo (DM = ‐135,79; IC 95%: ‐179,50 a ‐92,08; p < 0,00001). A heterogeneidade de (I2 = 68%) foi estatisticamente significativa (p = 0,01) (fig. 5).

Figura 5.

Gráfico em floresta para comparação: 2a análise da comparação do ácido tranexâmico versus placebo na perda sanguínea total estimada.

(0,24MB).
Necessidade de transfusão de sangueÁcido tranexâmico vs. placebo

O uso de ácido tranexâmico foi associado a uma redução significativa da necessidade de transfusão de sangue comparado ao placebo (OR = 0,45; IC 95%: 0,32‐0,65; p <0,00001; I2 = 60%) (fig. 6).

Figura 6.

Gráfico em floresta para comparação: 3a análise da comparação do ácido tranexâmico versus placebo na necessidade de transfusão de sangue.

(0,19MB).
Discussão

Este estudo investigou a administração de antifibrinolíticos em cirurgias oncológicas em cinco ensaios clínicos randômicos, com 838 pacientes, e a associação desses medicamentos na redução da perda sanguínea, transfusão de sangue e eventos tromboembólicos. Porém, houve necessidade de uma metanálise para fornecer evidências científicas relacionadas a esse tipo de cirurgia. Há um estudo no qual os autores abordaram apenas cirurgias oncológicas ginecológicas, reforçam a necessidade de mais estudos sobre esse tema.36

Esta metanálise não encontrou significância estatística na incidência de eventos tromboembólicos (OR = 0,36; IC 95%: 0,11‐1,19) quando o TXA foi comparado ao placebo nos cinco ECRs. De forma semelhante, Zaid et al.7 não mostraram aumento do risco de complicações tromboembólicas em uma coorte de 200 pacientes submetidos à prostatectomia radical com TXA e acompanhados por seis meses. Gupta et al.37 também não descobriram aumento do risco de complicações tromboembólicas com a administração profilática de TXA no intraoperatório em cirurgia radical.

Nesta revisão, observamos uma redução significativa da perda de sangue (DM: ‐135,79; IC 95%: ‐179,50 a ‐92,08) e da necessidade de transfusão de sangue (OR = 0,45; IC 95%: 0,32‐0,65) nos pacientes que receberam TXA comparados aos que receberam placebo. De acordo com nossos resultados, Wu et al.32 relataram em um ECR com 214 pacientes que, nas ressecções de tumores hepáticos, a perda de sangue e a necessidade de transfusão no período perioperatório foram significativamente reduzidas no grupo TXA comparado ao placebo.

Em uma metanálise recente, semelhante aos nossos achados, os autores relataram que a administração de antifibrinolíticos não esteve associada ao aumento do risco de tromboembolismo venoso e que era eficaz para reduzir a perda sanguínea e a necessidade de transfusão.38

Kietpeerakool et al.16 corroboraram esta revisão e evidenciaram em metanálise que avaliou pacientes com câncer de ovário avançado submetidas à cirurgia citorredutora que o TXA esteve associado a uma redução significativa da perda sanguínea. Por outro lado, em discordância com este estudo, esses autores não evidenciaram diferença significativa na necessidade de transfusão de sangue entre os grupos. Além disso, em um estudo controlado randômico, os autores não observaram diferença significativa na perda sanguínea durante cirurgias ortopédicas em pacientes com câncer que recebiam antifibrinolíticos.35

Apesar da inclusão de apenas ensaios clínicos randômicos para aumentar a qualidade desta análise, existem algumas limitações, tais como o pequeno número de amostras e a quantidade significativa de heterogeneidade entre vários resultados. As variações na população estudada, o tipo de cirurgia, a metodologia e as diferentes doses entre os diferentes estudos podem explicar a heterogeneidade. Outro fator é que a análise dos eventos hemorrágicos e tromboembólicos variou nas pesquisas, o que pode interferir no resultado. Além disso, o tromboembolismo foi avaliado apenas quando havia alguma evidência clínica, o que pode ter subestimado a frequência dessa complicação. Portanto, os dados precisam ser avaliados com cautela, pois esses parâmetros geralmente requerem estudos maiores. Mais estudos clínicos randômicos são necessários para reforçar a confirmação dos resultados desta metanálise.

Esta metanálise não encontrou evidências de que a administração de antifibrinolíticos a pacientes submetidos à cirurgia oncológica aumente o risco de complicações tromboembólicas, mas sugere que é eficaz para reduzir a perda sanguínea total no perioperatório e a necessidade de transfusão de sangue.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

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